Resenha Crítica: Mulher-Maravilha


O que faz do filme da Mulher-Maravilha tão superior aos tão criticados Batman V Superman e Esquadrão Suicida? O filme está equiparável em qualidade aos da Marvel? O filme é o melhor da DC Comics? Estas e outras questões serão explanadas aqui.

A personagem criada por William Moulton Marston (9 de Maio de 1893 - 2 de Maio de 1947) fez sua primeira aparição no oitavo volume de All Star Comics em Dezembro de 1941, ganhando revista própria já em 1942. Diana Prince, diferente dos outros super-heróis da época, servia como um cavalo de Tróia: muitos pais levaram as revistas para suas crianças sem saber que a personagem pregava a igualdade de sexos e abalava o conceito da superioridade masculina. Tendo sido criada pelo inventor do polígrafo e alguém que acreditava que as mulheres deveriam ser livres para fazer o que bem entendessem (além de incentivar sua esposa a conquistar três graduações, algo bastante incomum para a época e tendo vivido uma relação poligâmica consensual), a Mulher-Maravilha sempre representou o que não só a mulher deveria ser — ela representava o que todos nós deveríamos almejar.

E, em meio a uma disputa entre o que é ou não errado e entre o que é ou não feminismo, que o filme se apresenta: mesmo que tenha sofrido com machismo antes de sua estreia e tenha sido duramente criticado por quem se diz feminista, o primeiro filme solo da Mulher-Maravilha surgiu para disputar em pé de igualdade com os melhores filmes já feitos dentro do gênero. Talvez — sem entrar no mérito da luta feminista — se a maioria das mulheres que se dizem feministas e também os homens que dizem acreditar na igualdade fossem como Diana Prince, o mundo estaria mais unido e não haveria a polarização em que hoje se encontra.

A jovem amazona cresceu em uma ilha em que, apesar de ser tratada pela mãe de uma maneira superprotetora em alguns momentos, gozava da mesma liberdade — e deveres — que qualquer outra das habitantes de Themyscira. Chegando ao nosso mundo no período da Primeira Guerra Mundial — uma adaptação, apesar da personagem ter sido criada no período da Segunda Guerra Mundial —, Diana teve que encarar uma outra realidade mas sem jamais se deixar influenciar ou se adaptar no que dizia respeito ao "comportamento que uma mulher deveria ter". A diretora do filme, Patty Jenkins, entendeu a personalidade de sua protagonista e fez com que sua estrela, Gal Gadot, conseguisse transmitir exatamente o que se esperava da personagem: uma guerreira valente, porém justa. Diferente de filmes panfletários — como o recente e indigesto Caça-Fantasmas — não há neste qualquer sugestão de superioridade em qualquer dos sexos, lembrando bastante Emma Watson em seu discurso sobre feminismo. Com toda a sua essência preservada e executada de forma extremamente competente, este foi um filme de uma protagonista forte e hipnotizadora, cujo magnetismo a coloca em um patamar elevado e, mesmo assim, dá a chance para que outros personagens possam brilhar sem que ela fique apagada — como o Capitão Steve Trevor, personagem de Chris Pine, um excelente alívio cômico que jamais é ridicularizado. Se há um filme que serve de parâmetro de comparação em termos de criação de personagens e narrativa, este é Animais Fantásticos e Onde Habitam.

O que se pode dizer é que este não é, obviamente, um filme da Marvel. Nem mesmo parece um filme da DC Comics atual mas sim com aquela que, no passado, entregou filmes como Superman (1978) e a trilogia do Cavaleiro das Trevas, dirigida brilhantemente por Christopher Nolan. A principal relação entre estes filmes e também os da Marvel é a mesma que os diferencia dos três primeiros filmes do Universo Compartilhado DC: propósito e execução. Os filmes da Marvel, mesmo se você é um dos que os considera bobos, são feitos com um propósito e são executados de tal maneira que o objetivo pretendido seja alcançado. Isto também vale para os recentes sucessos da Fox, como Deadpool e Logan. A mesma regra também foi aplicada nos filmes executados por Nolan: com a intenção de abordar como seria se um vigilante decidisse agir como herói em nosso mundo, os três filmes mostraram uma visão realista de como isto seria. É o Batman definitivo? Jamais, é um universo muito particular e bem executado que respeita a essência do personagem mas o aborda em outro contexto. Da mesma forma, Batman V Superman tentou inovar em um gênero supostamente saturado com ideias grandiosas com a intenção de se tornar o filme definitivo de super-heróis. Infelizmente, o filme não conseguiu e passou longe de ter qualquer qualidade. Logo após, outro fracasso: Esquadrão Suicida, o filme cujo marketing e maquiagem pareciam ser as únicas coisas bem planejadas, deixando de lado roteiro e repleto de edições desastrosas — ambos os problemas também estavam presentes em Batman V Superman. Quando as esperanças se esvaíram e boatos problemáticos sobre os futuros projetos da DC se espalharam, foi preciso que a Mulher-Maravilha representasse a esperança que o Superman de Henry Cavill e Zack Snyder jamais foi capaz de trazer.

O filme é brilhantemente executado, com uma montagem de cenas agradável e cenas de luta que parecem Dragon Ball Z (e esta provavelmente foi a contribuição de Zack Snyder, tendo em vista que ele fez exatamente isto em Man of Steel). Se há algo que incomoda um pouco, estas são as cenas em CGI que de vez em quando incomodam — são raros estes momentos, mas existem. A fotografia e a trilha sonora estão impecáveis, ambas contribuindo bastante para todo o clima do filme. Enfim, este foi o filme que mostrou que a mídia não odeia os filmes da DC e que, quando esta resolve fazer bons filmes, todos somos capazes de tecer grandes e calorosos elogios. O filme da Mulher-Maravilha está à altura de todo o legado da personagem e esperamos que o filme da Liga da Justiça, que ainda causa certo receio pelo gosto amargo deixado por Batman V Superman, seja tão bom quanto.







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